terça-feira, 18 de outubro de 2011

Imagem Raríssima!!! (enxameação de Jandaíra)

Em todos esses anos de prática com as Jandaíras (melipona subnitida), poucas foram as oportunidades que tive de testemunhar uma enxameação dessa espécie, mesmo assim, em todas as vezes nunca consegui capturar o momento exato em que a rainha chegava na nova morada.

A dificuldade tem uma explicação, além de ser um fato raríssimo de se avistar, a princesa só entra no novo ninho depois de tudo já pronto para sua recepção, afinal de contas, depois de desenvolvida sua fisiogastria, de lá só sairá morta.


Mas a sorte muitas vezes bate na porta daqueles que persistem. No mês passado, durante a visita do nosso amigo português Joaquim Pífano ao Brasil, fizemos uma visita na Comunidade do Jucuri, que fica na zona rural de Mossoró-RN, nessa oportunidade visitamos alguns meliponicultores e meliponários.

A certa altura da visita, quando estávamos a fotografar algumas colônias, nos deparamos com um grupo de Jandaíras que se aglomeravam exatamente naquele momento. Pífano, por não entender o que se passava, me perguntou o que seria aquela agitação inesperada de abelhas.


Antes de responder alguma coisa ao Pífano perguntei ao dono das abelhas se as caixas que estavam "atrepadas" no pé de cajarana estavam com colônias situadas, ou seja, se já haviam abelhas morando ali dentro. Não haviam, as caixas tinham sido colocadas ali por puro acaso, eram caixas já velhas com muita cera e própolis dentro, pois não é costume do sertanejo se utilizar de caixas-iscas na nossa região.

-Joaquim é uma enxameação! Respondi ao amigo que a essa altura do evento já se encontrava a bater fotos. Passamos algum tempo observando e tentando nos aproximar, mas uma bendita cerca de madeira nos impedia de chegar mais perto. 



(clique na foto para ampliar, vejam a nova rainha circulada em rosa)

A agitação das abelhas dificultava a identifcação da princesa que pudesse está por ali no intuito adentrar ao recinto. Todavia, ao analisar as fotos pacientemente encontrei a princesa que tanto procurava na oportunidade. Devo confessar que se trata de uma relato único, nunca tinha visto uma foto que pudesse atestar de forma tão segura a existência de uma princesa em meio a tanta "confusão organizada" de abelhas.

O mais interessante de tudo é observar o comportamento das abelhas ao redor da princesa, percebam que as campeiras mais velhas fazem uma espécie de círculo como se quisessem proteger a tão esperada rainha. Esse comportamento, típico de aceitação e submissão entre as abelhas, nos mostra que essa certamente era a escolhida para reinar daquele momento em diante.

Mais um momento inesquecível da visita do amigo Pífano ao nosso belo sertão potiguar.

Mossoró-RN, em 18 de outubro de 2011.

att,

Kalhil Pereira França
Meliponário do Sertão 

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Meus fiéis ajudantes

Qualquer manejo que venha a realizar com as abelhas sempre estou acompanhado dessas duas figurinhas aí. Trata-se do Alfredo e do Samuel, o primeiro é sobrinho de minha esposa e segundo é filho de uma prima de minha mulher. No final das contas, são meus sobrinhos por adoção, pois quando estou em Tibau sempre estou acompanhado dos dois.

Nesses dias estava a montar algumas caixas nordestinas e eles não perderam a oportunidade em ajudar, quanto se trata das abelhas estão sempre prontos para me acompanhar. Na verdade a participação tem um doce interesse, pois a "ajuda" é quase sempre acompanhada de um pedido de mel, são loucos por mel de Jandaíra, mas quem não é?

Não é raro encontrar alguma caixa com a tampa mal fechada pois os dois andam a pilhar mel das abelhas sempre que podem as escondidas. O engraçado é depois ver a cara de pau dos dois todos lambuzados de mel a negar toda atividade furtiva.

Aos poucos eles vão crescendo e pegando gosto pelas abelhas, sempre que recebo visitas não demoram em se titularem dono das abelhas, se pelo menos um dos dois ganhar gosto pela coisa pra mim já seria uma grande satisfação.

att,

Mossoró-RN, em 14 de outubro de 2011.

Kalhil Pereira França
Meliponário do Sertão

Visitas...

Nesses últimos dias tenho recebido muitas visitas, dias atrás, tendo passado antes em Manaus-AM, a capital da diversidade biológica brasileira, recebemos o casal Joaquim Pífano e Maria Luíza de Portugal. Pífano, como é mais conhecido no meio virtual é o dono de um dos mais visitados blogs de apicultura do Mundo, o monte do mel (http://www.montedomel.blogspot.com/).


Estou a esperar pela remessa de algumas fotos de sua autoria para publicar uma postagem especial sobre sua visita, foram dois dias de intensos contatos com as abelhas sem ferrão, meliponicultores de diversas regiões de Mossoró, com outras cidades e lugares do Sertão do RN. Tenho certeza que os dois saíram daqui fascinados pela beleza de nossas abelhas e pela receptividade de nosso cabloco nordestino (aguardemos as fotos).

Outras duas figuras ilustres que me trazem sempre muita alegria foram o casal Francisco das Chagas e Selma Carvalho. Sem dúvidas os dois maiores meliponicultores do Brasil. Juntos fizemos uma revisão em quase todas as minhas colônias de Uruçu Amarela e Verdadeira. Chagas ficou encantado com as nossas matrizes e me relatou que as minhas estavam com o mesmo padrão de população e postura das suas na Serra do Araripé.

O Chagas ficou muito curioso pela excelente adaptação das minhas abelhas ao litoral, me sugeriu algumas dicas e solicitou que eu fizesse o acompanhamento da temperatura e umidade do local para avaliações futuras e estudos comparativos. Essa semana mesmo estarei providenciando o equipamento para esse acompanhamento metereológico.


Ganhei de presente uma raridade, um cachaça à base de mel de abelhas, coisa raríssima e acima de tudo deliciosa feita pelo casal. Chagas me relatou que a Rede Globo de Televisão de Pernambuco fará, mais uma vez, uma reportagem sobre sua linda criação no Araripé.

Os dois estão a lançar uma nova cartilha que vai tratar da raríssima Uruçu de Chão. Pra quem não conhece o Casal abaixo segue uma reportagem antiga da Globo sobre sua criação em Igarassú-PE, vale a pena assistir porque o trabalho desses dois é fantástico.


Já ontem levei a Dra. Vera Lúcia Imperatriz, uma das maiores estudiosas  na área de meliponicultura que atualmente coordena um grupo pesquisadores da UFERSA-USP, junto com alguns alunos e um convidado especial, o Bob, Australiano que trabalha com polinização utilizando as abelhas scaptotrigonas naquele país, para conhecer as minhas abelhas sem ferrão. 

Também fizemos uma rápida inspeção em nossas colônias, em especial as mandacaias (melipona mandacaia) que tem sido alvo de nossos estudos de viabilidade na região. Tenho tido grande sucesso na criação dessa espécie, em todas as caixas há uma ótima população. Todavia, observei ontem que quase todas estão com seus estoques de mel no limite crítico. Ainda nesse fim de semana vou iniciar o processo de alimentação, caso contrário poderei perder algum enxame.

Dra. Vera levou alguns exemplares de machos de rufiventris e Partamona (cupira), para alimentar seus bancos de dados e pesquisas genéticas. Foi um visita muito prazeroso e acima de tudo muito produtiva. Muito em breve teremos grandes novidades para a Meliponicultura do nosso Estado, talvez esteja surgindo por aí a nossa Associação Meliponicultores do Estado do RN, futura AME-RN.

att,

Mossoró-RN, 13 de outubro de 2011

Kalhil Pereira França
Meliponário do Sertão

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

De volta ao meliponário, alimentando as Uruçus...

Diz aí pra mim, tem como a gente acordar de mal humor com o sorriso de um cabra desse??? Tem não né! Nos últimos 3 meses tem sido quase sempre assim, nesse último fim de semana não foi diferente. Depois de muitas brincadeiras e fraldas trocadas passei o pequeno Heitor para mãe e fui logo cedo alimentar minhas colônias de Uruçu Verdadeira pois o inverno já passou e agora é hora de manter as abelhas até passar a estiagem.


Ainda no dia anterior tinha preparado o xarope, tenho sempre utilizado as seguintes medidas: 5kg de açúcar + 4 litros de água + 500ml de mel de apis + erva cidreira + suco de limão + 3 a 4g de aminomix Pet. Procuro sempre fazer a noite para que no outro dia bem cedo faça o manejo, não costumo nem colocar na geladeira pois quase sempre a panela fica até tarde da noite ainda bem quente, não chega a estragar. 


No total faço por volta uns 10 litros de xarope pra alimentar todo mundo, nas Uruçus tenho utilizado com grande sucesso e facilidade no manejo os bebedouros de passarinho desse modelo acima que tem capacidade para 300ml cada. São ótimos pois são fáceis de repor nas caixas e com eles dificilmente há afogamentos.


Começo sempre pelas colônias novas, mais à frente eu explico o por quê, com a introdução do acetato abaixo da tampa tem facilitado muito toda a operação, principalmente as inspeções que se tornaram muito seguras. Tenho tido grande sucesso nas minhas divisões, até hoje nunca perdi uma divisão de uruçu, isso se deve a alguns fatores, entre eles está a grande fartura de alimento que introduzo nas colônias recém formadas.


Isso tem uma explicação, as colônias mais fortes não costumam respeitar os enxames recém formados e que ainda não estão com rainha, é muito comum observarmos as colônias mais velhas pilharem as mais novas, esse comportamento só vai diminuir com o advendo da rainha nova na caixa recém formada, dessa maneira, pra que esses enxames não fiquem fracos e seja estimulado a construir potes empurramos alimento. O resultado é esse da foto, mesmo ainda sem rainha há bom desenvolvimento do enxame.


Nas caixas novas a mudança dos alimentadores é tranguila, pois o potes de alimento chegaram ainda ao final da caixa, o difícil é nos enxames mais velhos que possuem centenas de potes de mel e com redução do espaço muitas vezes encontramos os alimentadores grudados nos potes. Mas aí vai o velho formão e algum cuidado extra pra não machucar ninguém.




Depois que passei a investir na Uruçu Verdadeira devo confessar que estou desestimulado com as outras abelhas, até mesmo a jandaíra, que é um excelente abelhas, não se compara com força da uruçu. As minhas matrizes vão sempre muito forte, o que tem me deixado muito feliz na manutenção das divisões e formação de novos enxames.


Essa está com tantas crias que a rainha passou a fazer postura na área dos potes de alimento, dentro de alguns dias vou fazer mais alguns divisões aproveitando esses conjuntos de discos que estão deslocados.



Quando abri esse enxame ainda tive a oportunidade de ver a rainha colocando seu lindo ovo, observe que interrompi o ritual de postura, pois uma célula de cria estava sendo preenchida com alimento larval nesse instante, clique na foto para ampliar.




Em todas as colônias, somente uma levantou a bandeira do alerta, foi essa caixa abaixo que está com a postura muito falhada, assim que abrir e percebi as falhas capturei a rainha para analisar sua saúde. Desoperculei algumas células de cria e percebi que essa rainha anda a colocar muitos machos, inclusive não era difícil encontrar muitos pela área do ninho.


Na hora tive vontade de matá-la, pois achei que o problema pudesse ser com ela, mas eu sei que essa rainha é muito jovem, o conjunto de discos novos abaixo estão bem saudáveis. Isso me leva a crer que talvez estive tendo problemas de liderança e tempos atrás algumas obreiras com ovários subdesenvolvidos estivessem a colocar ovos de machos. No final, não matei, pois acho que ela conseguirar (se já não conseguiu) manter uma postura de crias fêmeas, normalizando assim a postura.


Por fim, retirei o execesso de batume de uma da colônias que estava impedindo o fechamento, esse batume é rico em substâncias antibióticas.



Agora uma coisa interessante, lembram que eu disse acima que começa com as colônias mais novas, está aí a explicação. Na medida que vou abrindo e fechando caixas as abelhas vão ficando bastante ouriçadas pela pela presença de alimento.

Nisso elas vão se aglomerando nos alimentadores no intuito de colher o máximo de xarope dos alimentadores que ainda faltam ser trocados. Se eu deixar as colônias mais novas para o final é capaz das milhares de campeiras entrarem em atrito com as abelhas dos enxames mais novos, o geraria muitas brigas e mortes. Por isso as mais novas e depois as mais velhas e fortes.

Att,

Mossoró-RN, em 10 de outubro de 2011.

Kalhil Pereira França
Meliponário do Sertão

domingo, 9 de outubro de 2011

COLMÉIA NORDESTINA

Abaixo transcrevo, na íntegra, uma importante contribuição sobre o manejo de nossas abelhas sem ferrão realizado pelo casal Francisco Chagas e Selma Carvalho, sem medo de exageros, os dois são no Brasil os maiores criadores da abelha Uruçu Nordestina, exemplo de amor e dedicação a causa das abelhas sem ferrão.

Trata-se de um relato muito bem fundamentado sobre a tradicional caixa nordestina, caixa essa que atualmente adoto em quase todas as minhas espécies de abelhas, tendo em vista que, mesmo tendo usado diversos outros tipos de abrigos na tentativa de evoluir, nenhuma dessas superou a caixa tradicional em todos os aspectos de manejo (divisão, alimentação, inspeção etc).

Pra mim, com todo respeito aos demais criadores e pesquisadores, ainda é a melhor caixa que existe para a meliponicultura.


COLMÉIA NORDESTINA

F.Chagas e Selma Carvalho


Explicações Iniciais

- Colméia Racional: Colméia com alças ou gavetas superpostas ou empilhadas, com medidas diversas a fim de comporem ninhos e melgueiras, mais o teto.

- Colméia Nordestina: Caixa comprida de madeira, com uma divisão interna menor destinada às crias e a maior para os potes.

Ambas as colméias são bem aceitas por todas as abelhas indígenas nordestinas, adaptando-se apenas as suas medidas.

São muito louváveis as tentativas de se criar uma colméia que facilite todas as operações de manejo. Os melhoramentos nas Colméias Racionais são sempre bem vindos: a promessa de colheita do mel mais higiênica, maior produtividade com a reutilização dos potes com conseqüente incentivo aos seus reenchimentos e maior facilidade na multiplicação com a utilização do sobre-ninho de colméia forte na formação da nova família.

O exemplo do Reverendo Langstroth, que em 1851 descobriu o significado do “espaço abelha” e inventou uma colméia que revolucionou a apicultura mundial, nos deixa esperançosos de que possa ser inventada a colméia ideal para a meliponicultura.

Não podemos, porém, fazer inferência do grande conhecimento que temos da “Apis mellífera” para os “Meliponíneos”. São grandes as diferenças que devem ser observadas quando pensamos num modelo de colméia, como por exemplo:

1. - A Apis mellífera deposita seu alimento sempre acima da cria;
- Os meliponíneos mais comumente abaixo da cria, mas também na parte acima ou nas laterais da cria;
2. - A Apis mellifera reaproveita os seus favos de cria e alimento;
- Os meliponíneos não reaproveitam seus favos de cria. Os potes de alimento esvaziados após a florada são destruídos e o seu cerume depositado nas paredes de outros potes.

3. - A Apis mellifera não reutiliza sua cera na construção de outros favos;
- Os meliponíneos reutilizam totalmente o seu cerume na construção de novos favos e potes.
4. - A Apis mellifera remenda seus favos danificados (na centrifugação, P.ex.);
- OS meliponíneos não “gostam” de remendar seus potes danificados ou deixados vazios: são construtores ou arquitetos por natureza. Reutilizam, para esse fim, todo o cerume fornecido interna ou externamente.
Já em 1948, o Dr. Paulo Nougeira-Neto criava a primeira colméia PNN a qual veio sendo aperfeiçoada pelo autor através dos anos. O último modelo nos foi presenteado após apresentação no Congresso Ibero-Latino-Americano, em Natal-RN, no ano passado (2010).

A colméia PNN ajudou enormemente o desenvolvimento da meliponicultura no Brasil (e no exterior). Achamos que a colméia PNN está para a meliponicultura assim como a langstroth está para a apicultura. O que seria dos meliponicultores surgidos nos últimos 60 anos se não fosse PNN a nos mostrar o caminho!

No Nordeste brasileiro, a tradição de criação de abelhas sem ferrão é muito antiga, inicialmente em troncos e posteriormente em caixas cuja referência já tivemos no século 19. Esse tipo de caixa ou cortiço foi batizado por Dr. Paulo Nogueira-Neto como “Colméia Nordestina”.

A Colméia Nordestina, como dissemos nas definições iniciais, era uma caixa comprida de madeira, com uma divisão interna menor destinada às crias e a maior para os potes, e um dreno para o mel na parte de trás.

Mas evoluiu:

- Nos anos 50 (1950) verifiquei que meu pai passou a usar os pregos da tampa a meio caminho, para facilitar a abertura. Depois passou a não usar pregos na tampa, mas duas amarras feitas com arame 18;

- No início dos anos 60, o Monsenhor Huberto Bruening (com quem tive o privilégio de conviver por 10 anos, ele como meu vigário e eu como seminarista da sua paróquia) adotou as dobradiças e as aldravas. Adotou também taliscas na tampa para melhorar o fechamento, e uma segunda tampa em vidro para facilitar a inspeção ou observação. Usou ainda a Colméia Nordestina na posição vertical;

- Já morando em Pernambuco, adaptei uma idéia para proteção contra lagartixa adotando um caneco defendendo a entrada da Colméia Nordestina, melhoria citada e aprovada por Dr. Paulo Nogueira-Neto no seu livro (Pag. 387);

- Com a idéia do Dr. Renato Barbosa (dentista e meliponicultor em Recife) de se usar o sugador odontológico na coleta do mel, abolimos o dreno traseiro, para esse fim, da Colméia Nordestina, e passamos a coletar esse produto com o máximo de higiene;

- Com a idéia do meliponicultor de Paulista-PE, Alcides Alves dos Santos, de se usar acetato na sob-tampa ao invés do vidro criado por Monsenhor Huberto, e de usar feltro substituindo as taliscas do Monsenhor, passei a adotar mais esse melhoramento na Colméia Nordestina. Em lugar do feltro estou usando uma tira retirada de um lençol de borracha de 2 mm de espessura.

- Na Colméia Nordestina podemos usar túneis artificiais com até 60cm de comprimento, nas regiões com muitos forídeos.

- Uma pequena modificação que adotei para a Colméia Nordestina foi a entrada lateral possibilitando o seu manejo sem retirá-la do lugar e seu uso tanto em estantes (meliponário) ou em pés (cavaletes) individuais, como nos beirais das cobertas de residências.

Atualmente tenho poucas colméias de alças como também não adoto mais Colméias Nordestinas na posição vertical (como fazia há 30 anos) pelo motivo constatado por Dr. Paulo Nogueira-Neto em visita a nossas instalações e citado em seu livro (Pag.141): ao abrir, caíam abelhas novas.

Os nossos cortiços são tidos como retrato do passado, coisa de caboclo, de índio. Para uns o nome Racional não se aplica à nossa colméia.

Porque, então, os grandes meliponicultores do nordeste ainda usam a Colméia Nordestina, apesar de conhecerem e já terem experimentado a colméia de alças?

Citemos alguns deles:

- Dr. Renato Barbosa - Recife – PE

- Dr. Tertuliano Aires Neto -Natal – RN

- Cel. Sérgio Guimarães - Natal – RN

- Paulo Menezes - Mossoró- RN

- Kalhil Pereira França - Mossoró – RN

- Afonso Gui - Igarassu – PE

- Leo Pinho - Igarassu – PE

- Alcides Alves dos Santos - Paulista - PE

- Ezequiel Medeiros - Jardim do Seridó – RN

- E outras centenas, da Bahia ao Maranhão.

Não quero fazer proselitismo em favor da Colméia Nordestina. A colméia de alças ou Colméia Racional é uma excelente idéia, a qual, como disse antes, abriu caminho para novos e numerosos meliponicultores que surgiram principalmente nas regiões com menos tradição na criação de abelhas sem ferrão. Conheço regiões no Nordeste em que quase todas as casas de caboclo tem cortiços de abelhas pendurados. O crescimento da meliponicultura nas demais regiões do Brasil deve, sem dúvida, sua parcela importante à criação da Colméia Racional PNN. Quem almeja criar abelhas quer saber primeiro em que, depois como.

Quem adotou a Colméia Racional continue com ela, pois satisfaz plenamente. Não faça como nós que no passado mudamos as abelhas de nossas colméias de alças para as Colméias Nordestinas, somente com a finalidade de facilitar o nosso tipo de manejo. Em Mossoró-RN, temos um marceneiro, o Sr. Miguel das Gaiolas que fabrica, também, excelentes colméias de alças em imburana-de-cambão. Nós temos delas com Jandaíra e com Uruçu, cujo manejo só vem reforçar nossa opção pela Colméia Nordestina.

Sem pretendermos ser exclusivistas, justificamos, a seguir, essa nossa opção particular pela Colméia Nordestina, mais como uma atitude de esclarecimento frente às referências pejorativas a nós dirigidas pelos modernos inventores de Colméias Racionais:

1. Com o advento das dobradiças e aldavras adotadas pelo Monsenhor Huberto, a Colméia Nordestina nos proporciona maior rapidez na inspeção e na alimentação artificial. Apenas 30 segundos são necessários para as operações de abrir, inspecionar, alimentar, fechar e sinalizar externamente o resultado da inspeção.

2. O uso das dobradiças e aldravas nos permite um fechamento igual ao anterior, proporcionando menos trabalho das abelhas na vedação de brechas e menos trabalho do meliponicultor na limpeza futura da própolis acumulada. Havendo algum deslocamento da própolis, o não fechamento das aldravras nos denuncia. Temos colméias com 30 anos fechando do mesmo modo sem nunca terem sido despropolizadas.

3. O uso do Sugador Odontológico, adotado pelo Dr. Renato, nos permite colher o mel com higiene e praticidade, sendo o cerume colhido nessa operação devolvido externamente às “arquitetas”. Esse novo manejo na coleta do mel nos permitiu eliminar da Colméia Nordestina o dreno traseiro para “despesca” do mel e a tábua divisória interna.

4. Com o uso do acetato e da vedação na tampa, adotado pelo Sr. Alcides, minorizamos o estresse das abelhas ao se abrir a colméia, com uma menor exposição à temperatura externa, e minimizamos o ataque defensivo contra o meliponicultor e a propolização.

5. Na multiplicação, sabendo que existe sempre um espaço entre os discos (ou espirais) de cria nascente e a cria nova, onde se encontra comumente a rainha, nós retiramos o bloco inteiro de cria nascente (pegado pelas laterais, para não diminuir o espaço-abelha) e o colocamos na caixa-filha. A rainha sempre deverá ficar na caixa-mãe, senão esta provavelmente não sobreviverá! As abelhas novas que se encontram entre os discos e são transladadas para a caixa-filha fazem parte do fechamento do ciclo na nova família.

6. As Colméias Nordestinas podem ser arrumadas tanto em estantes para colônias de abertura frontal como em estantes para as de abertura lateral. Podem ser usadas em pés individuais ou penduradas em alpendres e beirais de casas.

Com relação às medidas da Colméia Nordestina, não existe um padrão. Seu espaço interno deve ser compatível com o tamanho da família que vai se criar nela e com o manejo do meliponicultor. Por exemplo, uma colméia para Uruçu Verdadeira deve ser bem maior que uma para Manduri; quem colhe mel só uma vez no ano deverá usar uma colméia maior do que quem colhe duas vezes. A espessura das paredes dependem da necessidade de maior ou menor proteção do frio ou do calor.

Nós, usamos, particularmente, Colméia Nordestina com as seguintes medidas:

Para Uruçu Verdadeira, Uruçu Amarela, Tiúba, Tubi, Mandaguari, Tubiba e Cupira, colméias medindo internamente 15cm x 15cm x 75cm.

Para a Uruçu Verdadeira o Dr. Tertuliano usa colméia de 20cm x 19cm x 75cm e o Dr. Renato usa 17,5cm x 23cm x 70cm.

Para Jandaíra, Mandaçaia e Uruçu de Chão usamos, particularmente, colméias medindo 15cm x 15cm x 50cm.

Para Jandaíra, Dr. Tertuliano usa 11cm (alt.) x 10cm (larg.) x 75cm (comp.). Dr. Renato usa 15cm (alt.) x 11cm(larg.) x 50cm (comp.). Ezequiel Medeiros usa 10cm (alt.) x 8,5cm (larg.) x 90cm (comp.), com ninho e melgueira separáveis.

Mons. Huberto usava 15cm (alt.) x 15cm (larg.) x 40cm (comp.), (caixas verticais) e 12cm (alt.) x 10cm (larg.) x 80cm (comp.) (usada na horizontal).. Temos uma colméia que pertenceu ao Mons. Huberto que tem escrito, internamente na tampa “Luiz Otávio de Lima fez 30.1.1967 P.HB”. Esta mede 14cm (alt.) x 12cm (larg.) x 75cm (comp.).E seu discípulo Paulo Menezes usa 10cm (alt.) x 07cm(larg.) x 75cm(comp.).

Para Manduri, Jati, Moça Branca e outras famílias menores, usamos colméias medindo 9cm (alt.) x 9cm (larg.) x 50cm (Comp.).

São só exemplos de que a Colméia Nordestina, mesmo com suas variações de medidas, proporciona sucesso aos nossos grandes meliponicultores.

Um destaque para as Colméias Nordestinas usadas pelo meliponicultor Cel. Sérgio, de Parnamirim –RN. São obras de arte. Além de famílias fortes as casas são lindas.

O criador Alcides, de Paulista-PE, trocou a madeira pelas placas de fibracimento, com grande sucesso. Não contém amianto. É o retrato da criatividade que alavanca a meliponicultura.

Para concluir: A Colméia Nordestina é simples, como simples são as nossas abelhas sem ferrão, como simples somos nós sertanejos, que com manejo simples não as deixaremos se extinguir.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

O dia que a Jandaíra chorou...

Nunca uma postagem foi tão difícil de ser escrita por mim, a cada palavra digitada tento conter as lágrimas que teimam em escorrer pelo rosto. Durante toda essa semana rezamos para que não vinhessemos a escrever tal notícia, mas infelizmente há muitas coisas nessa vida que não estão em nossas mãos e essas nós devemos entregar a Deus.


Hoje, por volta do meio-dia, no Hospital Regional Tarcísio Maia em Mossoró-RN, vítima de complicações avançadas de câncer, faleceu, aos 90 anos de idade, Seu José Carneiro Cavalcanti Dantas, meu amado avô materno, patriarca de nossa família, a quem devemos a honra dos ensinamentos de uma vida e amor pelas abelhas nativas.

Ainda na quinta-feira à noite, já muito debilitado pela doença e sentindo a hora, olhou pra mim muito sereno e apertou minha mão. Enquanto o colocavamos na maca para que a ambulância pudesse levá-lo ao hospital me disse baixinho que suas forças estavam indo.

Nada tive corragem de dizer, pois as palavras praticamente me fugiam da boca, na verdade, o momento não era hora para palavras, nenhuma consegiria acalentar meu coração que àquela altura já se encontrava em pedaços. No leito de morte, seu último desejo era morrer em casa, na sua eterna Casa Grande, na qual todos fomos criados. Infelizmente, não foi possível.


Vê-lo partir naquela ambulância a caminho do hospital foi um dos momentos mais difíceis da minha vida, pois sentia que nunca mais viria meu avô novamente, estava certo. Saber que amanhã não terei mais o prazer de sua companhia, de suas histórias, de seus relatos, de seus contos antigos, de seus eternos ensinamentos de moral e caráter, tudo isso é muito duro para mim.

Mas como dizia o poeta:"navegar é preciso, viver não é preciso". O barco da vida continua, o sol nascerá novamente, nada como um dia atrás do outro para que sofrimento da perda se transforme em saudade e este último se transforme em lembranças melancólicas de um homem que amava, acima de tudo, as coisas do Sertão mais que todos nós.

Amanhã, as Jandaíras do Meliponário do Sertão acordarão mais tristes...

att,

Mossoró-RN, em 23 de setembro de 2011.

Kalhil Pereira França
Meliponário do Sertão

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

A sem ferrão que virou uma praga!



Uma das consequências do atual desequilíbrio ecológico que vivemos é a extinção de espécies, ou pela ausência do seu bioma natural ou do próprio animal.

Todavia, em alguns casos ocorre exatamente o contrário, ou seja, espécies que estavam em harmonia acabam, devido a ausência dos fatores de controle natural anteriormente existentes, se tornando, literalmente, pragas.

No mundo das abelhas sem ferrão isso também acontece. É o caso atualmente da abelha Irapuá (trigona spinipes), também conhecida como abelha cachorro, este himenóptero é conhecido do Oiapoque ao Chui e devido há muitos fatores, mas principalmente pela ausência das plantas (principalmente a balsa, Ochroma logopus) que fazem o seu controle natural, vem se proliferando com grande facilidade.

Esse inseto tem grande capacidade polinizadora, mas em contrapartida se utiliza de comportamentos prejudiciais para muitas plantas. Esse abelha aprendeu que não precisa esperar pela abertura dos botões florais para sugar o néctar das flores, ela simplesmente descepa os botões florais na base e coleta o néctar desejado, acontece que esse "inteligente" comportamento acaba por inviabilizar os frutos, prejudicando assim a planta.

Além disso, essa abelha, devido ao material utilizado para construção do ninho, acaba por cortar as pontas das folhas, base de frutos e brotações novas no intuito coletar a secreção (resinas) expelida pela planta que nessas regiões são mais aglutinadas.

Em alguns Estados do Brasil essa abelha tem se tornado uma grande dor de cabeça, principalmente para as grandes monoculturas agrícolas como a da Citrus ssp (laranja etc) e Musa ssp (bananeiras).

Sabe-se ainda que em épocas de pouca florada tem comportamento furtivo, ou seja, acabam pilhando diversas outras abelhas, em especial as do gênero melipona. Certa vez me surpreendi com uma ataque fulminante dessa abelha a uma de minhas colônias de Jandaíra.

Seu mel é tóxico e não deve ser consumido por humanos. Há na literatura nordestina, principalmente a de cordel, relatos que o mel dessa abelha acaba por deixar o cabra "embreagado". Muitos pesquisadores tem recomendado a destruição dos seus ninhos no intuito de controlar o crescimento de suas populações, principalmente em regiões onde há concorrência direta com as outras nativas do gênero melipona, bem como em regiões agrícolas de monoculturas atacadas.

Bem, me parece que alguma coisa tem que ser feita, pois realmente esta abelha está fora de controle. Mas antes de qualquer coisa é preciso esclarecer que a culpa não é do inseto, e sim do homem que desequilibra seu ambiente proporcionando esse tipo de situação.

De toda forma, acredito fielmente que esse inseto deve possuir alguma qualidade econômica, principalmente pela sua grande capacidade polinizadora. há de existir culturas que sejam beneficiadas pelo trabalho desse inseto, bem como pela grande produção de cera que produzem, já coletei muita cera de irapuá e vejo que misturada a cera de jandaíra pode ser aproveitada para fortalecer muitas espécies de meliponas.

att,

Mossoró-RN, em 05 de setembro de 2011.

Kalhil Pereira França
Meliponário do Sertão

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Meliponicultura: Legal ou clandestina?

Muita gente, as vezes sem intenção, acaba escrevendo abobrinhas na internet sobre muita coisa, com a meliponicultura não é diferente, principalmente sobre a legalidade da atividade. Certa vez li num blog, que por sinal era de um biólogo, onde o mesmo relatava que o nome “pomposo” atribuído a essa nova atividade era estratégia de marketing e nada tinha a acresentar a natureza. Por fim, o autor comparava atividade da Meliponicultura com práticas criminosas realizadas por um meleiro que tinha derrubado uma árvore para capturar uma suposta colônia de Jataí.

Começa por aí a primeira e fundamental diferença entre meleiro e meliponicultor. Meleiro é quem, de forma indiscriminada, vai a mata e retira o mel das abelhas apenas no intuíto de consumí-lo ou comercializá-lo, sem se preocupar com o destino final das abelhas. Essa prática é criminosa é altamente criticada por todos os amantes das abelhas nativas, mas isso não é meliponicultura.

Meliponicultor é aquele que cria, de forma racional, as abelhas sem ferrão no intuito de contribuir com a natureza através do trabalho diário das abelhas, colhendo os frutos (mel e novos enxames) da atividade de forma sustentável sem prejudicar o meio ambiente. Na grande maioria dos casos, nem renda com atividade tem, pois o mais importante pra esses criadores é o prazer que a atividade diária com esses insetos tão especiais proporciona.

A meliponicultura é hoje uma atividade regulamentada, LEGAL e estimulada por diversos órgãos ambientais e instituições de pesquisa do Brasil. A título de exemplo a Embrapa possui diversos estudos sobre a sustentabilidade e importância da atividade para agricultores de baixa renda.

O Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA), através da Resolução nº 346/2004 disciplinou a utilização das abelhas nativas, bem como a implantação de meliponários no Brasil. Atualmente, é permitido aos criadores Cadastros junto a autoridade federal competente (IBAMA) a comercialização de enxames, dos produtos e subprodutos oriundos das abelhas sem ferrão.

Enfim, meliponicultura não é marketing, como algumas pessoas pensam, nem muito menos clandestina. Meliponicultura é atividade nobre, respeitada, importante para a natureza, pois contribui de forma significativa para a preservação e difusão do conhecimento sobre as abelhas nativas, tão ameçadas.

A Meliponicultura é uma das poucas atividades no mundo que se encaixa nos quatros grandes eixos das sustentabilidade. É geradora de impacto ambiental positivo, é economicamente viável, é socialmente aceita e culturamente importante pela proposta educacional que desempenha.

Através de nossas praticas racionais todos os dias centenas de novas colônias de abelhas sem ferrão são geradas. Dessa maneira contribuímos para perpetuação de nossas matas, pois além da produção de mel, as abelhas realizam um trabalho muito maior que é o da polinização. Por isso se você deseja ser meliponicultor inicie na atividade sem medo de ser feliz, espere por momentos prazerosos e encantadores. Aprecie sem moderação.

Attt,

Mossoró-RN, em 14 de agosto de 2011.


Kalhil Pereira França
Meliponário do Sertão

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Revista ACAPAME - Meliponicultura em Mossoró/RN

Abaixo transcrevo na íntegra o relato da visita dos amigos e pesquisadores da USP/UFERSA a nossa cidade no ínicio desse ano, onde os mesmos tiveram a portunidade de visitarem muitos meliponicultores da nossa região. Um desses agraciados foi eu. Na oportunidade trocamos muitas experiências e alguns relatos sobre os avanços no manejo da Jandaíra na caixa tipo INPA, adaptada a essa abelha.

Fica aqui, desde já, o meu profundo agradecimento pela lembrança do pequeno trabalho junto as abelhas Jandaíras, fonte de minha inspiração cotidiana. A minha casa está de portas abertas a todos vocês.

Meliponicultura em Mossoró-RN

Ayrton Vollet Neto1, Cristiano Menezes2 e Vera Lucia Imperatriz Fonseca3
1. Universidade de São Paulo - Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP-USP)
2. Bolsista Prodoc/CAPES - Universidade Federal Rural do Semi-árido (UFERSA)
3. Universidade de São Paulo - Instituto de Biologia (IB-USP) e Universidade Federal Rural do Semi-árido (UFERSA)
Autor para correspondência: ayrtonvollet@gmail.com

Com o slogan "Mossoró da Gente", esta cidade do interior do RN chama a atenção pelo processo acelerado de desenvolvimento em que se encontra. A economia é movimentada principalmente pela produção de sal marinho, fruticultura irrigada voltada para a exportação, além de ser o maior município produtor de petroleo em terra do país (Fonte: Wikipedia http://pt.wikipedia.org/wiki/Mossor%C3%B3#Setor_secund.C3.A1rio acessado em 03/11/2010). Mas o que mais me chamou a atenção nesta bela cidade - apesar de eu ser suspeito para falar - foi a meliponicultura.

Em Mossoró a meliponicultura está fixada nas raizes do povo. Lá, ao se perguntar para qualquer pessoa onde se encontra mel, é possível receber a resposta, "de Europa ou Jandaíra?". Eu nunca havia ouvido esta resposta, é raro encontrar alguém que sabe que outros tipos de abelhas existem. Conhecer o mel das abelhas nativas então, isso foi inédito para mim. A maior surpresa veio ao fazer compras em um grande supermercado da cidade, onde encontramos nas prateleiras uma embalagem de mel de jandaíra, com registro junto à Secretaria de Agricultura do RN, retirado e processado em casa de mel e tudo mais (Figura 1 e 3). O responsável por este produto estar naquela prateleira é o Sr. Paulo Menezes, o maior meliponicultor da cidade.

Dono de grande simpatia e gosto pela conversa, principalmente sobre as abelhas, o "Seu Paulo", como é chamado, possui cerca de 600 colônias de jandaíra (Melipona subnitida) espalhadas pelo sertão nordestino (Figura 2). Com uma organização que não se vê comumente por aí entre os meliponicultores, ele produz e comercializa dentro do estado do RN cerca de 300 litros de mel por ano, com a marca "Mel Menezes". Ele, somado à iniciativa de minha orientadora, Profa. Vera Lucia Imperatriz Fonseca, que vem desenvolvendo um grande trabalho com a meliponicultura do RN no cargo de professora convidada da UFERSA - RN, organizaram uma pequena visita aos meliponicultores da região de Mossoró.


Figura 1: Os méis embalados pelo Sr. Paulo Menezes, que são comercializados no estado do RN


Figura 2: Um dos meliponários para produção de mel do Sr. Paulo Menezes. A caixa utilizada por ele é a modelo "nordestina".


Figura 3: Casa do mel do Sr. Paulo Menezes. No centro, um decantador de inox que é usado para separar as impurezas do mel. Nas garrafas de vidro o mel colhido fica em processo de "maturação".
Figura 4: Berguinho à frente de um de seus meliponários de Jandaíras.


Seguimos rumo à "Praia Redonda", localidade pertencente ao município litorâneo de Areia Branca. Lá encontramos com "Berguinho", meliponicultor bastante jovem, que herdou as caixas do pai (Figura 4). Com grande intusiasmo, Berguinho mostrou suas caixas de jandaíras, principal foco do seu trabalho, algumas moças brancas (Frieseomelitta doederleine) e jatis (Plebeia sp). Ele afirma que não tem muito tempo para cuidar das abelhas, por conta do trabalho, mas consegue tirar algum mel, que vende a conhecidos. Quando questionado sobre o manejo que faz nas caixas, logo coloca sua opinião: "se eu alimentar elas vão se acostumar, e vão parar de trabalhar!".

Ainda em Areia Branca conhecemos alguns meliponicultores pequenos, que deixaram as abelhas um pouco de lado, como é o caso de um pescador já de idade, que por causa de um problema com sua mão, e da falta de interesse dos mais jovens de sua casa, já não cuida mais de suas Jandaíras. A surpresa boa ficou para o fim daquele dia, quando por meio das informações que Seu Paulo consegue, com muita habilidade, com o povo da região, encontramos o Sr. Mesquita. Com cerca de 70 caixas de Jandaíra, O Sr. Mesquita foi o meliponicultor mais organizado que encontramos. Ele mesmo confecciona suas caixas, que possuem uma qualidade e um acabamento que não encontramos em caixas de abelhas floradas sem ferrão, e toma o cuidado de pintá-las de cores diferentes para não confundir suas abelhas.


(Figura 5).

Assim como o Berguinho, Mesquita não alimenta suas abelhas, mas com um outro argumento: "não preciso, sempre estão cheias de mel". E pelo que presenciamos lá em pleno início da época seca - quando faltam recursos para as abelhas - é a mais pura verdade. Por algum motivo, que desconfiamos ser a maior umidade do litoral, onde a seca não é tão severa, as abelhas não precisam de alimentação. E mais, segundo o meliponicultor, as abelhas produzem uma média de 2,5 litros de mel por ano. Um litro a mais que a média do Seu Paulo Menezes, que possui um manejo mais avançado de suas colônias, mas as mantém na caatinga do interior, onde a seca é maior. Outra hipótese levantada pela professora Vera Lucia é a de que as Jandaíras do litoral possam ser ligeiramente diferentes das abelhas do interior, mostrada entre outras caracteristicas, pela diferença de produção de mel.

No dia seguinte, de volta a Mossoró, fomos a casa de um jovem, porém já experiente meliponicultor, Kalhil Pereira. Muito bem recebidos por ele e por sua mãe, fomos conhecer as abelhas que mantém em sua casa, dentro da cidade. Kalhil tem uma visão avançada da meliponicultura, e quer trazer os avanços e mudanças que os pesquisadores e meliponicultores tem atingido para os seus meliponários. Uma prova disso é a mudança no tipo de caixas que ele vem realizando. A caixa tipo "nordestina" é a mais comum entre os criadores de Jandaíra, sendo utilizada tradicionalmente há muito tempo pelos meliponicultores no Rio Grande do Norte (Figura 2). Apesar de funcionar perfeitamente para a criação da Jandaíra, a caixa nordestina apresenta algumas desvantagens em relação a uma adaptação das medidas da caixa modelo INPA feita pelo próprio Kalhil para acomodar a Jandaíra (Figura 6 e 7). Nesta caixa as divisões podem ser facilitadas, além da possibilidade da colocação de melgueiras, por onde pode ser retirado o mel com maior higiene e facilidade. Apesar destas caixas auxiliarem a produção de mel, o foco do Kalhil não é este. Ele é um grande comerciante de colônias de abelhas nativas, atividade que complementa consideravelmente a sua renda.


Figura 5: O Sr. Mesquita (esquerda) e o Sr Paulo Menezes posam para foto ao lado do meliponário do Mesquita.


Figura 6: Modelo de caixa vertical utilizado por Kalhil na criação da Jandaíra.



Figura 7: A abelha Jandaíra se adaptou bem ao novo modelo de caixa. Aqui podemos ver uma cria forte, em uma época de escasses de recursos. Em um outro quadro de melgueira ficam os potes de alimento (no caso, retirado para foto do ninho).


Figura 8: Favos de cria da Jandaíra. A rainha aparece em destaque nas células superiores.


Finalmente visitamos a fazenda experimental da UFERSA, onde está sendo criada uma ótima infraestrutura para pesquisas em meliponicultura, bem como em apicultura. Lá os Professores Lionel Segui Gonçalves e a Vera Lucia Imperatriz Fonseca já reformaram e equiparam 2 locais de pesquisas com abelhas.

Foi uma viagem bem curta, na qual grandes nomes da meliponicultura não foram visitados, como o Sr. Ezequiel Roberto Medeiros de Macedo, de Jardim do Seridó-RN, que possui centenas de colônias de Jandaíra, e infelizmente ficou de fora do nosso trajeto. Apesar disso pudemos ter uma boa visão da meliponicultura da região de Mossoró, onde a criação de abelhas nativas existe há muito tempo. Pudemos ver que na maioria dos casos esta é uma tradição passada de pais para filhos, feita na maioria das vezes como atividade de lazer ou fora de moldes produtivos. Porém, observamos o surgimento de criadores com novas idéias e visões sobre a meliponicultura, dispostos a fazer da atividade o próprio sustento, e que já viabilizaram a comercialização do mel da abelha nativa em grande escala.

Sem esquecer que a grande protagonista, e principal responsavel pelas conquistas narradas acima, é a Jandaíra. Abelha forte, robusta, que resiste à seca e o calor do sertão nordestino, e produz uns dos méis mais saborosos já produzidos (Figura 8).

Registro nossos agradecimentos aos meliponicultores que nos receberam muito bem, sempre dispostos a bater um bom papo e abrir as portas de suas casas, em especial ao Sr. Paulo Menezes, que além de tudo nos guiou pela região de Mossoró. À UFERSA pelo apoio durante a nossa visita, em setembro de 2010 e ao financiamento CAPES.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

A Menor Abelha do Mundo


Vocês conhecem a Remela? Também conhecida como Lambe-olhos é uma das menores abelhas do mundo. Da família das leurotrigonas, é uma abelhinha muito pequena e de população muito reduzida. A média populacional gira em torno de 50 a 100 abelhas adultas. Tudo nessa espécie é pequeno, a iniciar pela sua caixa que não cabe facilmente na minha mão. O furinho de entrada é tão minúsculo que nem as formigas tem acesso ao ninho.

Os potinhos de pólen são pouco maiores que o polegar do meu dedo. De tão pequenas, fica até dificil pra mim que não tenho uma máquina fotográfia profissional tirar uma foto de qualidade. Sua postura é igual a das abelhas moças-brancas, fazem uma espécie de cacho de uva muito bonito e sensível.

Um fato curioso nessas abelhas é a sua grande capacidade de enxamear, já ouvi relatos de meliponicultores encontrarem vários enxames dessa espécie numa mesma área. Esse fato se deve ao seu tamanho reduzido, o que facilita a nidificação em praticamente qualquer lugar.

Por ser pequena é praticamente impossível a sua localização na natureza, na grande maioria das vezes a captura é feita atráves de ninhos-iscas ou mesmo pelo encontro casual na mata. É o mimo de qualquer meliponicultor que ama o que faz, criar um enxame desses é com cuidar de um récem nascido. Tudo aqui é delicado e frágil. 

Essa é a meliponicultura com suas mais varias espécies de abelhas sem ferrão, é tanta a diversidade de cores, tamanhos, sabores de mel e pólen que fica difícil a gente não se apaixonar.
att,
Mossoró-RN, em 05 de agosto de 2011.


Kalhil Pereira França
Meliponário do Sertão

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

A Raríssima Uruçu-de-Chão (melipona quinquefascita lepeletier)

Muita gente não sabe, mas entre as abelhas sem ferrão há uma espécie muito bonita que nidifica no chão. A uruçu-do-chão ou mandaçaia-do-chão (melipona quinquefasciata lepeletier) é uma abelha sem ferrão, nativa do Brasil, que se caracteriza por nidificar no solo. 


Raríssima, vem a cada dia sucumbindo devido a diversos fatores, principalmente pelo desmatamento indiscriminado, do uso abusivo de produtos químicos na agricultura e avanço do homem em regiões de mata virgem. Seu nome (quinquefasciata) vem exatamente da presença das 5 listras presentes no seu abdomem. Essa é uma abelha que tem a coloração bastante peculiar, a pigmentação das listras nos confunde muito, é a chamada furta-cor, pois não dá pra definir com certeza qual é realmente sua cor, é verde ou amarelo?

Muitos pesquisadores acreditavam que essa abelha só era encontrada naturalmente apenas nas regiões Sudeste, Sul e Centro-Oeste. Todavia, pesquisas recentes mostraram a ocorrência da uruçu-de-chão no Estado do Ceará, sendo este o primeiro registro dessa espécie para o Nordeste do Brasil (LIMA-VERDE & FREITAS, 2002).


As novas descorbertas tem estimulado muitos meliponicultores a estudarem uma forma de mantê-las em caixas de madeira (sob o solo ou bem próximo a ele), tendo em vista a dependência dessa abelha com o solo. Isso se deve ao fato que esse inseto é extremamente sensível a variações de temperatura, necessitando muito de proteção. Há relatos da captura da Uruçu-de-chão a mais de 3 metros de profundidade.

O meliponicultor Dr. Francisco das Chagas vem conseguindo, após muitos esforços, manejar essa espécie com certo sucesso em caixas de madeira com algumas adaptações importantes. Uma delas é a criação de um tubo de entrada bem longo, na casa dos 70 cm, pois foi percebido por ele a grande fragilidade que essa abelha tem ao ser atacada por forídeos. 


Hoje tenho apenas um exemplar dessa raríssima abelha que me foi dada de presente do meu Prezado amigo Chagas. Pensei que fosse perdê-la assim que chegaram, pois inventei de colocar a caixa próxima das uruçus amarelas o que gerou muita briga. Mas após perceber a besteira que tinha feito isolei o enxame em local protegido e venho observando uma ótima recuperação. Pela manhã sempre chegam bem carregadas de muito pólen, fato esse que me traz muita expectativa por um futuro promissor dessa espécie. Ainda é muito cedo pra falar mas acho que conseguirei mantê-las aqui com algum esforço.

att,

Mossoró-RN, em 04 de agosto de 2011.

Kalhil Pereira França
  Meliponário do Sertão  

terça-feira, 2 de agosto de 2011

A Força da Uruçu Verdadeira (melipona scutellaris)


Tida por muitos como a melhor abelha do Brasil, a Uruçu Verdadeira (melipona scutellaris) é absolutamente imbatível em quase todos os aspectos. Nenhuma outra abelha chega a níveis de produção, população e facilidade de manejo dessa espécie tão difundida pelo país inteiro.


Nos últimos meses tenho me dedicado profundamente a criação dessa abelha que vem me surpreendendo a cada dia. Quem primeiro me apresentou a Uruçu foi o grande Meliponicultor e amigo, Francisco das Chagas, com ele tenho aprendido a manejar com grande facilidade essa abelha que guarda alguns segredos interessantes.

Lembro que na primeira vez que vi uma colônia dessa, coberta até a tampa de crias e muitos potes de mel cheguei a duvidar da inexistência do ferrão, por um momento pensei que fosse até apis. A surpresa veio acompanhada da paixão e desde aquele dia venho me dedicando a criação dessa espécie tão produtiva.

Eu já tive a uruçu e outras espécies nas mais varias caixas, caixa tido como inteligentes, INPA, PNN, RTL, Maria etc. E devo confessar uma coisa, nenhuma delas proporciona o conforto que a caixa Modelo Nordestina Padrão para uruçu proporciona. Respeito imensamente quem tem opinião contrária, mas a minha certeza é a seguinte, quanto mais me afasto da caixa tradicional (Nordestina) mais aparece um fator complicador no manejo. Essa opinião é pessoal e só serve pra meus objetivos (multiplicação).


Ainda não encontrei espécie que se compare com a Uruçu, a sua imensa população proporciona ao meliponicultor mais experiente uma enorme facilidade de manejo. Tirar família de uma caixa dessa é pra mim uma das coisas mais fáceis do mundo, já cheguei a produzir de uma única família em menos de uma ano (técnica 2:1) 06 novas caixas e mesmo assim a caixa mãe mantinha ótimos níveis de população.

Quando maduros (discos claros) basta descolarmos os pilares de sustentação lateral e levantarmos o conjunto por completo de discos, atualmente não usamos mais a tábua divisória do ninho e melgueira o que tem facilitado ainda mais a retirada dos discos sem provocar praticamente nenhum dano.


Outra vantagem da caixa Nordestina é a facilidade para alimentarmos internamente, como a caixa é alta acomoda tranguilamente os bebedouros de passarinho que são utilizados com alimentadores. Falando nisso um desses cheio com capacidade de 300 ml e devorado em menos de 2 horas.


Outra interessante introdução foi a utilização do acetato sob a tampa superior, o uso do acetato 0.30 tem proporcionado uma grande vantagem nas avaliações das colônias, mas principalmente para a introdução do alimentador pois bastar levantarmos a lateral desejada para a substituição dos bebedouros.


O acetato 0.30 não é tóxico as abelhas e devido as suas qualidades tem evitado a morte por esmagamento de campeiras durante o fechamento da tampa, outro dica de manejo interessante foi a colocação de tiras de papel borracha (evi) nas bordas o que escuresse as caixas novas diminuindo a produção de batume.

Uma coisa que tenho percebido e tem me deixado bastante satisfeito é a observação de umidade no interior do enxames de uruçu. Em Mossoró-RN, devido ao clima muito seco era necessário muitas vezes a colocação de água dentro das colônias, mas em Tibau-RN, devido as novas condições climáticas (litoral) isso não tem sido necessário pois sempre encontro algumas importantes gotículas de água no acetato, graças a umidade natural da região.


Essa é uma da várias famílias que já estão separadas para divisões em agosto, estou só esperando esses discos amadurecerem para retirada de novas famílias, é por isso que tanto gosto da caixa nordestina, graças a abertura de toda a caixa podemos observar em detalhe de uma só vez todo enxame e com o acetato ficou ainda mais fácil.



Se pararmos pra contar com paciência perceberemos que cada disco desse tem em média de 800 a 1000 células de cria, por isso que é tão fácil multiplicar essas abelhas, pois na medida que vão nascendo rapidamente chegamos a um bom números de campeiras mesmo nos enxames recém criados. Fico a me perguntar sobre a quantidade de alimento ingerido pelas rainhas para manter tamanha capacidade reprodutiva.


Em algumas colônias chego a colocar dois ou mais alimentadores pois todos são consumidos em menos de 2 horas, visto a força dos enxames. Fora que a quantidade de potes de polén é absurda, andei pessando algumas caixas e ultrapassaram facilmente a casa dos 20kg de puro alimento.


Muitas de minhas matrizes ainda estão sem o acetato, acontece que a folha do acetato é bem cara, apenas para ter uma idéia uma folha de 60 x 50 custa R$ 12,00, bem salgado. Mas o ganho no manejo vale a pena, pois a melhora no manejo é significativa. Veja que na foto abaixo há muitas abelhas mortas pelo esmagamento constante do abre e fecha, com o uso de acetato acabamos com isso.


Em muitas das matrizes fica até ficil colocar o alimentador pois elas já consumiram todo o espaço da caixa, essa é a força da uruçu que a cada dia me deixa mais estimulado com futuro promissor desse inseto. Minha intenção é investir muito nessa abelha pois acredito que ela tenha um grande potencial.

Observem que na foto da matriz abaixo, devido a presença do acetado 0.30, não há praticamente abelhas mortas nas bordas. Na verdade nem era preciso levantá-lo, pois poderiamos avaliar o enxame por cima dele.


Essa foto abaixo é uma das minhas caixa novas que foram dividas a poucos dias e em breve estarão a todo vapor de produção, o que mais chama atenção é a grande quantidade de abelhas, pois é um enxame recém formado. Por isso que tanto gosto desse abelha, acredito que ela poderá ser uma alternativa viável a meliponicultura em muitos aspectos.

Os potes de alimento foram todos construídos em menos de uma semana e quase todos são de polén, a presença desse alimento me garante que minhas abelhas estão respondendo de forma excelente a região, prentendo manté-las aqui por bastante tempo, pois todas as condições são extremamente favoráveis a sua criação.

Ainda ouviremos falar muito das Uruçus Verdadeiras do Meliponário do Sertão.

att,
Mossoró-RN, em 02 de agosto de 2011.

Kalhil Pereira França
Meliponário do Sertão